domingo, agosto 06, 2017

POEMA DE MARIA MADALENA JUNTO AO SEPULCRO



Onde puseram o meu Senhor? Mesmo morto

O seu corpo receberia o perfume dos meus olhos

Onde o puseram? Ele não é um morto

Como os outros para que o Seu corpo se consuma

O meu choro é o que sobra do meu coração

Tanto amor, sem retorno físico, preso

Na indiferença da morte

Dizei-me anjos, vós que não trouxestes

Do céu os crepes com que se amortalham os mortos

Não sei onde o puseram, e a Sua ausência

Mais enobrece o meu amor, sou uma mulher simples

Que rompeu as cadeias dos olhares dos homens

Para vir derramar-se junto ao seu sepulcro.



06/08/2017
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sexta-feira, agosto 04, 2017

NEM SEMPRE ESTRANGEIRO



“Sou peregrino na terra”
Salmo 119

“Heureux qui, comme Ulysse, a fait un beau voyage”
Joachim du Bellay


Agora caminho para o lado
Mais previsível da vida, quase tudo
Está concluído com a idade
Pegadas no caminho desde mil
novecentos e quarenta e sete
Quando Abril abria fendas para as torrentes
Primaveris, agora caminho como um viajante
Estético com os olhos em tudo, desde o homem
Aos animais de estimação, vou na rota
De um grande silêncio. A minha bagagem
Não me seguirá, feliz é aquele que sem velo
Nem riqueza como Ulisses
Faz a sua viagem de regresso a casa.


04/08/2017

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segunda-feira, julho 31, 2017

A MULHER DE LOT




Presa a alguns vestidos, os únicos

Que a pressa arrancou de casa, sonâmbula

Na fuga da destruição, e indecisa

Entre um lugar e outro, um olhar e outro

Para trás onde a casa começa a derruir

Um rio de lava a morrer nos olhos

E a estrada em frente

O que pesa nos seus olhos

Que a levou ao fundo, um olhar para trás

E tornar-se um marco no caminho?

Um corpo salgado aonde as aves vão

Debicar o sal e deixar rastos de plumas

No corpo da mulher de Lot nenhuma vida

Agora se repete, é uma língua morta.


30/07/2017

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sexta-feira, julho 28, 2017

TALVEZ ENTRE AS ÁRVORES





“And death shall have no dominion”
Dylan Thomas



Há um lugar entre o trono de Deus e a sepultura, aí
Estará o nosso espírito à espera
Da reunião do corpo, nestes tempos pouca gente
Crê, acha que morrer é como o fumo
Que se evade da chama e se evanesce
Não posso dizer onde é esse lugar
Não é longe de Deus, talvez entre as árvores
De frutos alegres no ouro do céu.

28/07/2017

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segunda-feira, julho 24, 2017

COMO UM PRÓDIGO ANTIGO

Pompeo Batoni, 1773



Quando o filho deixou a casa, não houve

discussão violenta nem ódios a partirem o olhar

um velho pai chorou

toda a sua vida inundando os olhos, o filho

mais novo silenciosamente juntou tudo

derramou sem pressas o ruído

da porta, que fechou, no silêncio da casa

chamava-o um rio sem leito, uma montanha

sem chão, um espelho, mas sem o riso

de uma boca iluminada, uma mulher talvez

com seu vestido sonhado, não sabia ainda

das humilhações, dentro de si

estava já uma terra longínqua.


23/07/2017

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RODOLFO E MIMI





“La più divina delle poesie
è quella, amico,
che c’insegna amare!
(Rodolfo, “La Bohème”)


Viveremos num castelo no ar, viveremos nos olhos
Um do outro, ébrios com o vinho
Que baste da palavra amor
Do silêncio das nossas mãos
Madrugada nenhuma deverá separar-nos
Do branco dos nossos sonhos, nem da fortuna
De uma noite de lua.


22/07/2017
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domingo, julho 16, 2017

SENHOR LAZARUS


“A sort of walking miracle”
Sylvia Plath



Aquele que veio do outro lado

da morte, com os olhos cheios

de intraduzíveis paisagens

Lázaro voltou

enriquecido com o seu silêncio

de ouro.



16/07/2017

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sábado, julho 08, 2017

POEMA DA RECÉM VIUVEZ

(Marc Chagall)



O que farei depois de partires, ninguém
Sabe, apenas nós por uma telepatia
De mãos, de olhares, de beijos, de risos
De caminhar
Sobre as mesmas pedras, ninguém saberá
É um segredo que o sangue guarda
Como aquele que Deus retém nos lírios do campo
Que os veste gloriosamente como nem um arco-íris
Ou nas aves que distinguindo o trigo e o joio
Ainda assim encontram o seu festim.
Outra coisa não farei depois de partires
Senão olhar todos os levantes
Na esperança da aurora.

08/07/2017

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